28/04/2020

Brasil é campeão mundial no índice de ansiedade e pandemia pode agravar sintomas e aumentar número de ansiosos

Psicólogo dá dicas para controlar sintomas e evitar gatilhos para crises durante o isolamento

A humanidade passa pela maior crise sanitária dos últimos cem anos. Metade da população mundial está em casa, em isolamento, seguindo instruções da Organização Mundial de Saúde (OMS). A outra metade continua sua rotina normal, mesmo enfrentando o medo de um contágio iminente. Um vírus que se propaga numa velocidade desenfreada, desafia a medicina, a ciência e os poderes. Faz o mundo parar ao mesmo tempo que obriga a civilização a travar uma batalha silenciosa pela sobrevivência.

Países decretam estado de calamidade pública e fecham suas fronteiras. O número de contágio sobe em ritmo acelerado. O de mortos também. No rádio, na TV, na internet, o cenário de medo se repete com notícias que parecem as mesmas de ontem. E serão as mesmas de amanhã. Por enquanto.

Os parágrafos acima poderiam ser parte da descrição de um filme de ficção, mas infelizmente retratam a vida real. E tempos incertos como o que vivemos pode deixar muitas pessoas ansiosas a um nível muito nocivo para a saúde.

De acordo com a OMS, a ansiedade atinge só no Brasil, mais de 18 milhões de pessoas. E o mal se torna um problema quando os sintomas são prejudiciais e afetam o dia a dia, impedindo que a pessoa tenha uma vida normal.

Mas como identificar se você está tendo problemas com a ansiedade?

Para o psicólogo Renato Ferreira, especialista em ansiedade, o sentimento é natural, sendo experenciado, portanto, por todos os seres humanos. A diferença entre ser benéfico ou nocivo está no seu grau. “A ansiedade é um mecanismo de defesa natural do organismo e para nossos ancestrais foi crucial na luta pela sobrevivência. O estado de alerta causado pela ansiedade era uma questão de vida ou morte, quando existia a probabilidade de ser atacado por um animal feroz, por exemplo”, explica Ferreira.

Durante uma crise de ansiedade o corpo entra em estado de alerta. “Nosso cérebro está sempre analisando o ambiente para identificar possíveis ameaças. O hipocampo e a amígdala são os responsáveis por esse processo, e diante de um risco em potencial, o sistema nervoso entra em ‘modo de combate’ ativando as glândulas suprarrenais que então liberam doses extras de cortisol e, principalmente, adrenalina”, acrescenta o psicólogo.

Esses dois hormônios, quando em excesso, dilatam os vasos sanguíneos, fazem o coração bater mais rápido e preparam os músculos para a ação. “Sensações físicas como taquicardia, tremedeira, falta de ar, entre outras, acabam se tornando reações tão corriqueiras na vida de um ansioso que, muitas vezes, ele nem sabe que é uma questão de saúde, que demanda tratamento”, alerta Ferreira.

E diante de um cenário assustador como o que temos vivido, tanto quem fica em casa no isolamento como quem precisa continuar saindo para trabalhar pode sofrer com crises de ansiedade. “Hoje o mundo está em crise de combate ao coronavírus e a tecnologia trouxe junto o excesso de informações negativas. A sensação de insegurança e o medo do que pode acontecer potencializam as crises de quem já sofre de ansiedade”, aponta Ferreira.

Para o psicólogo, o momento requer muita compreensão. Os governos se mobilizam para salvar vidas e ao mesmo tempo tentam segurar a economia para diminuir as perdas financeiras. Mas é preciso pensar também na saúde emocional das pessoas. “Nesse momento de isolamento, as pessoas precisam entender que não é uma privação do direito de ir e vir. É importante ter em mente que nos foi posta a possibilidade de nos proteger e protegermos também as pessoas que amamos e a comunidade num geral. Ter esse sentimento, de estar fazendo um pequeno sacrifício por um bem comum costuma ser benéfico nos momentos de crise”, afirma. “É um momento doloroso, mas também um ponto de reflexão importante”, acrescenta Ferreira.

 

Ansiedade e as funções no trabalho

A costureira Micheli Nunes passou anos acreditando que era apenas uma pessoa muito nervosa. Mas quando começou a ter problemas no último trabalho sua supervisora a aconselhou a procurar um psicólogo. E logo na primeira sessão, Micheli entendeu o que era ansiedade.

“Lembro que foi bem esclarecedor para mim. O psicólogo foi me ‘descascando’ e eu passei a entender que não era normal eu me sentir tensa o tempo todo. Que não era normal eu sentir tremedeira e falta de ar todos os dias. Não era normal eu não entregar minhas tarefas no prazo ou não conseguir raciocinar direito quando o chefe chegava perto”, relata.

Para o psicólogo, os sintomas que a costureira tinha eram sintomas claros de transtorno de ansiedade. “É um sofrimento excessivo, sem causa. A pessoa sofre por um pensamento que passou rapidamente pela mente que ela nem lembra mais, mas continua sofrendo. E a ansiedade vai ficando constante, intensa e sem compreensão. E além dos sintomas físicos, há também o sofrimento psíquico, a pessoa ansiosa sofre por situações improváveis que podem ou não acontecer”, esclarece o psicólogo.

Depois de algumas sessões de terapia, Micheli passou a ter mais qualidade de vida, principalmente em relação ao trabalho. “Antes do tratamento eu não tinha mais foco. A pressão para bater a meta era esmagadora para mim. Eu me sentia ansiosa para cumprir e conforme o tempo ia passando, ia ficando ainda mais ansiosa até não conseguir produzir absolutamente nada. A ansiedade estava prejudicando minha vida profissional e eu não fazia ideia de que eu sofria de ansiedade”, conta Micheli.

O especialista alerta que a ansiedade é uma das maiores causas de prejuízos nas empresas brasileiras, sendo responsável por afastamentos médicos e pela maioria da falta de concentração e foco da equipe, o que significa que diante da pandemia atual, esses números podem crescer ainda mais.

“Por isso existe a importância de um diagnóstico feito por um profissional competente”, adverte Ferreira. “Durante uma consulta podemos identificar se os sintomas são mesmo ansiedade e em qual grau ela está. Depois do diagnóstico é possível determinar o tratamento e, muitas vezes, um tratamento com mudança de crenças por meio de ferramentas que ajudarão a controlar a ansiedade é suficiente. Mas num caso de ansiedade mais grave, talvez num primeiro momento a pessoa possa precisar da ajuda de medicamento. Mas a decisão do tratamento deve ser feita por um médico e sempre com o acompanhamento dele”, explica o psicólogo.

Como manter a calma e evitar gatilhos?

A ansiedade muitas vezes pode ser paralisante. O medo nos impede de tomar uma ação, nos torna impotente. Mas para Ferreira, a tomada de decisões rápida e com firmeza é uma dica primordial para melhorar os sintomas de ansiedade. “É preciso criar o hábito de tomar decisões com rapidez, arregaçar as mangas e entrar em ação. Não adianta tomar uma decisão e deixar para amanhã. A decisão tem que ser tomada no momento da ação”, aconselha.

Outra dica importante e muito simples é focar na respiração. Quando sentir que uma crise de ansiedade vai começar, tome consciência dela, pare, respire com calma sentindo o ar entrar e sair. “É preciso ser mais paciente consigo mesmo. Muitas vezes somos amáveis com os outros, mas cobramos demais de nós mesmos. Por isso não precisa se culpar o tempo todo, não precisa se cobrar tanto. Ter mais compaixão por si mesmo faz toda diferença”, afirma o psicólogo.

Ferreira ainda acrescenta: “Nesse momento recomendo exercícios físicos leves, que possam ser feitos em casa mesmo. Recomendo também mais contato consigo para realinhar pensamentos e rever crenças que o levam a ter medo do cenário atual. Ter contato com a realidade também nos ajuda a ser resilientes. O ser humano está lutando pela sobrevivência nesse momento e um dos caminhos que temos é entrar em contato conosco, refazer nossas crenças limitantes, usar a respiração a nosso favor, ler um bom livro. É bom saber usar o tempo”, aconselha.

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